Empreendedorismo e oportunidade: o case Xerox 0
Em tempos de crise, ser inovador é essencial. Lembremos que uma das qualidades mais valorizadas pelas organizações atualmente é a capacidade de seus colaboradores de promoverem inovação e empreendedorismo dentro do âmbito da organização. Jacques Filion, professor titular da cadeira de Empreendedorismo da Escola de Negócios HEC de Montreal, chama essa característica de intraempreendedorismo. Mas, até que ponto uma organização consegue identificar os indivíduos intraempreendedores e seus projetos inovadores, e quais oportunidades que estes têm de aplicação no mercado? E mais, como reter os talentos e idéias? Na minha opinião, este é um grande desafio para qualquer empresa que investe em P&D.
Um dos casos mais notórios de intraempreendedorismo efetuado por uma organização que resultou em uma perda notável de capital intelectual e, obviamente, dos lucros decorrentes, é o da interface gráfica desenvolvida pela Xerox PARC na década de 70.
O Xerox Palo Alto Research Center (PARC) foi um grande centro de pesquisa da Xerox fundado em 1970. Algumas das inovações na área da computação criadas pelo PARC foram o mouse, os gráficos em cores, a ethernet, o padrão PostScript, a programação orientada a objetos e a impressora a laser, dentre outras. Vários de seus produtos não obtiveram êxito comercial, e a maioria dos projetos foi abandonada ou copiada por outras empresas, mas o maior erro cometido pela Xerox – segundo os historiadores da computação – foi a sua negligência com a interface gráfica, copiada pela Apple em 1979, que obteve um sucesso comercial estrondoso com o lançamento do Macintosh em 1984, sendo depois copiada em todos os modelos de interfaces homem-computador posteriores.
Até meados da década de 70, o computador pessoal era um sonho longe de acontecer: os computadores ainda eram muito grandes, muito caros e muito complicados de manipular. Algum conhecimento de linguagens de programação era necessário para operá-los, sendo que toda a manipulação era realizada via linha de comando, ou seja, via instruções de texto digitadas linha a linha pelo operador.
Desde a década de 60 algumas pesquisas vinham sendo direcionadas à criação de interfaces amigáveis com o computador, com destaque para as lideradas por Douglas Engelbart, do Instituto de Pesquisa de Stanford. Engelbart vinha desde 1945 pesquisando as possibilidades de interação homem-computador, inspirado pelo famoso artigo de Vannevar Bush, “As we may think”, e após vários anos pesquisando e inovando para a ARPA (Advanced Research Projects Agency), encontrou na PARC o subsídio necessário para concretizar várias de suas idéias. E foi neste contexto que o mouse, o hiperlink e a interface gráfica surgiram.
A Xerox utilizou durante anos essas invenções em seus sistemas proprietários, como no computador Xerox Alto, mas nuca deu a devida importância para elas, preferindo dedicar-se às inovações que diziam respeito ao seu negócio: reprografia.
Em 1979, o presidente e fundador da Apple, Steve Jobs, visita o PARC e se entusiasma com as possibilidades da interface gráfica, e promove as pesquisas que resultaram na interface do computador Lisa. Apesar de um fracasso comercial, o Lisa foi um “laboratório” para a Apple em suas pesquisas com o computador pessoal e, em 1984, o Macintosh se tornou um grande sucesso comercial com sua metáfora desktop e as janelas inspiradas nas pesquisas do PARC. O resto é história: a Microsoft copia o conceito de desktop da Apple e lança o Windows, e a interface gráfica, inicialmente considerada um “brinquedo” pelos pesquisadores e profissionais, se torna o modelo padrão de interação homem-computador.
Após inúmeras e duras críticas, a Xerox decidiu em 2002 dar um segundo fôlego ao PARC, dando-lhe autonomia como empresa própria (ainda que controlada pela Xerox) e definindo um modelo de exploração sistemática das competências centrais existentes. Ao invés de negligenciar seus cérebros, deixando-os desmotivados até saírem, eles passaram a ser tratados como intraempreendedores, permitindo que seus projetos e idéias sejam incubados pela Xerox, mesmo que não haja uma relação direta com suas áreas centrais de crescimento. Hoje, o PARC atua nas áreas de pesquisa biomédica, nanotecnologia, redes sociais, automação, entre outras.
Na minha opinião, o “case” Xerox ilustra bem que não basta apenas alinhar as inovações com as estratégias da empresa, mas que também não podemos negligenciar as idéias que aparentemente não façam parte do “core” do negócio. É importante de alguma forma reter o conhecimento gerado, agregando-o ao portfolio de produtos – sob o risco de perder oportunidades de novos negócios e, principalmente, talentos.
Referências Bibliográficas:
FILION, Louis Jacques. Entendendo os intraempreendedores como visionistas. Revista de Negócios, Blumenau, v. 9, n. 2, p. 65-80, abr./jun. 2004.
JONHSON, Steven. Cultura da interface: como o computador transforma nossa maneira de criar e comunicar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
Para saber mais:
- Doug Engelbat highlighted by our good friend David Nordfors executive director of the VINNOVA-Stanford Research Center on Innovation Journalism (nextnow.net)
- The Origin of the Computer Mouse (scientificamerican.com)
- Gates: Apple is ‘a force in doing good things’ (news.cnet.com)
- Apple’s Steve Jobs Declared “CEO of the Decade” (mashable.com)
- Meet the guy behind the ‘i’ in iMac, iPod, iPhone (seattlepi.com)
- Gates on Jobs is good (robbiz1978.blogspot.com)
- Steve Jobs Is THE Man (thetechscoop.net)
- Microsoft exec: Mac OS inspired Windows 7 (news.cnet.com)


















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